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Reformas a preço popular

12/04/2021 -Fonte: Jornal do Commercio - Economia

O desejo de ter o próprio negócio e, ao mesmo tempo, fazer um trabalho social tem levado profissionais ao desafio do empreendedorismo social que, na prática, significa um modelo de negócio em que o lucro final não é o objetivo principal. Neste cenário, a construção civil, e mais especificamente, as reformas residenciais têm se mostrado um filão interessante.

Segundo a Vivenda, uma das maiores startups do segmento no País, o Brasil tem cerca de 30 milhões de moradias de baixa renda que necessitam de reformas, sendo que 82% dessa população declara interesse em realizar melhorias em seus imóveis. Isso representa um mercado potencial de R$ 158 bilhões. Dificuldade de acesso ao crédito e mão de obra qualificada são os principais obstáculos encontrados pelos moradores de comunidades para executar essas melhorias.

Com a ideia de resolver essas questões a arquiteta Samille Germana fundou em 2016 a Abra, que tem em seu slogan "Arquitetura com Propósito". "A ideia, desde o início, era oferecer ao público de baixa renda acesso a profissionais qualificados da área da construção civil. Hoje somos uma empresa social que busca a melhoria habitacional através de reformas feitas de forma segura, sem desperdício, com acompanhamento técnico e garantias", diz ela. Outra preocupação de Samille, que toca a empresa junto com a sócia e também arquiteta, Eline Letícia, é que as reformas sejam viáveis para o cliente.

"A parte mais difícil é convencer o morador da comunidade de que arquiteto não é só para quem é rico. A arquitetura é uma necessidade para todo mundo porque ajuda a melhorar as condições de vida das pessoas, então todos devem ter acesso a esse serviço". Na prática, a parceria com uma financiadora, também com natureza social, ajudou a viabilizar o negócio tanto para as empresárias como para os clientes. O resultado é que a reforma pode ser financiada em até 30 vezes no boleto, com juros de até 2,2% ao ano.

VALORES

"O pacote que a gente vende oferece o projeto, mão de obra, material e gerenciamento da obra. O tíquete médio por ambiente fica entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, e o valor da parcela parte de R$ 90, podendo chegar a R$ 300 ou R$ 400, dependo do orçamento", explicou Eline Letícia. A empresa trabalha apenas com reforma de ambientes porque o limite de crédito para o financiamento é de R$ 11 mil. A Abra já atuou em 43 comunidades do Recife com 308 projetos e mais de 1.500 pessoas impactadas.

Em 2020, apesar de ser um ano complicado, o mercado conseguiu se estruturar. "Como negócio o empreendedorismo social é viável, no nosso caso, como são reformas rápidas, a gente ganha no volume. O desafio é comunicar as pessoas que este serviço existe e convencê-las de que elas podem pagar por ele", diz Eline Letícia.

A também arquiteta e urbanista Camila Viegas atua na mediação de mão de obra e capacitação de trabalhadores em construção civil, além de executar reformas habitacionais. Tudo através da startup social Viverde Casa. A empresa surgiu oficialmente em 2019, mas Camila já fazia trabalho semelhante de forma voluntária há mais de dez 10 anos. "Resolvi transformar o voluntariado em um modelo de negócio que pudesse ser replicado em escala", explicou Camila.

Como empreendedora social, o foco de Camila era a capacitação também de mulheres. Os cursos envolvem temas básicos como pintura e empreendedorismo até aperfeiçoamento de profissionais em tecnologias de construção civil. A startup atua no sistema B2C (contato direto com o público final) ou B2B2C, quando outra empresa financia o usuário.

Os cursos custam entre R$ 80 e R$ 900, dependendo do tema e da carga horária. No ano passado, a startup ofereceu, em parceria com o Porto Digital, um curso de manutenção predial para mulheres da comunidade do Pilar, no Bairro do Recife.

"São cursos para quem tem ou não condições de pagar. O mesmo em relação às reformas, o cliente paga diretamente o serviço de melhoria ou temos parceiros que bancam a reforma para um grupo". Camila fechou recentemente uma pareceria com a Habitat Brasil, ONG global com sede nacional no Recife, onde a ONG faz a contratação e Viverde Casa executa as reformas.

PLANEJAMENTO

No ano passado, a startup capacitou cerca de 200 pessoas. Camila considera o empreendedorismo social extremamente viável, mesmo quando comparado a um negócio puramente comercial. "Fazendo um paralelo, o negócio social tem uma capilaridade maior, porque as pessoas se identificam com o propósito do seu negócio. Não é o dinheiro pelo dinheiro. É uma relação de ganha-ganha. Ao mesmo tempo em que estamos desenvolvendo um trabalho social nós estamos sendo remunerados. Nem sempre é um ganho exorbitante que o mercado está acostumado a ter com uma só pessoa, mas como desenvolvemos um modelo em escala a gente consegue gerar uma boa rentabilidade".

Segundo Camila Viegas, a Viverde Casa cresceu cerca de 200% desde o início de sua operação e a estimativa é que, somente este ano, a empresa consiga mais 300% com os aportes financeiros via aceleradoras de negócios.

O consultor do Sebrae, Vítor Abreu, explica que uma empresa de cunho social não é apenas um negócio voltado para as classes C, D e E, ele tem a missão de colaborar para resolver problemas e causar um impacto na vida das pessoas. Mas, como qualquer negócio, precisa ser viável e deixar retorno financeiro. É diferente de uma ONG, que não visa lucro.

"O empreendedor social precisa fazer contas logo após a concepção da ideia. É preciso planejar para projetar como a empresa vai se sustentar. Na composição de custo dos serviços, a dica é procurar parceiros, se possível com o mesmo propósito, para viabilizar o acesso dos clientes. E sempre focar no ganho em escala. O ideal é que a ambição econômica venha atrelada da ambição social, para que os objetivos sejam alcançados e a empresa se torne sustentável", diz o analista.

Construção civil tende a esfriar

O isolamento social levou muitos brasileiros a perceberem que não estavam satisfeitos com o ambiente doméstico. Ao abandonar a rotina fora de casa, gastos por oportunidade e despesas com restaurantes e transporte foram reduzidos. Por consequência, sobrou verba para fazer aquela reforma que sempre foi adiada, e o varejo pôde comemorar o aumento nas vendas.

Para este ano, no entanto, as estimativas não são tão positivas. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumulou alta de 11,95% nos últimos 12 meses, o que reflete no bolso do consumidor.

"O volume de vendas de materiais de construção chegou a crescer 11%. Mas esse percentual não vai se repetir. O ciclo de uma reforma é mais curto que o de uma edificação, então muitas já estão sendo finalizadas. Com os produtos mais caros e uma insegurança em relação à manutenção do emprego, os consumidores vão ser mais cautelosos e adiar o início de novas obras", avalia a coordenadora de Projetos de Construção do FGV IBRE, Ana Castelo.

Outro fator que pode prejudicar as vendas é o agravamento da pandemia. O economista e superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu, diz que a incerteza em relação a prazos de entrega faz com que os consumidores optem por não fazer reformas agora: "Isso ainda pode levar a outro problema. No Brasil, o consumidor não tem o hábito de pintar casa, mas, sim, de contratar um pintor; ele não faz uma instalação hidráulica, contrata um bombeiro. Uma vez que há incertezas, eu paro a reforma, o comércio não vende, a indústria começa a saturar e esses profissionais autônomos passam a ser menos contratados, perdendo renda alguma.

Nos projetos executados pelo escritório MAIS.ArqUrb, o material é adquirido com antecedência, para evitar atraso no cronograma da obra. A arquiteta Maisa Santos comenta que materiais que antes tinham previsão de entrega em 20 dias agora demoram até 60 para chegar: "A demanda é grande, e o alongamento de prazos para a entrega é significativo."

O engenheiro Vinícius Dias, da Base Construtora, já observou aumento nos preços de produtos essenciais. O metro cúbico da brita, que custava R$ 42 em janeiro de 2020, estava sendo vendido a R$ 65 no mesmo mês deste ano.

Itens como ferro e tijolo também tiveram aumento considerável. O milhar deste último, por exemplo, saltou de R$ 350 para R$ 680 em apenas um ano - reajuste de 94%.

"Tivemos atraso de dois meses nas nossas obras porque, além de o preço estar mais alto, o que nos fez esperar para ver se conseguíamos alguma oferta, a loja não tinha pronta entrega", conta Dias.



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